Todos os anos muitas coisas entram para a história. A minha história. A nossa história. Não me refiro à política brasileira, onde o eleitor parece votar pelo retorno a um regime ditatorial. Falo sim de experiências pessoais raras, algumas são maravilhosas. Outras nem tanto. Na noite fria deste domingo de outubro também não falarei do encontro casual, acidental, que me decorreu há dois meses, com uma dama que me tem aquecido as noites, mesmo à distância, com suas doces palavras de afeto, recitadas ao telemóvel com prazer e paixão.
Optarei, para ser breve, por falar de dois encontros com Estrela, uma ovelha negra jovem que me deixou duplamente alimentado e satisfeito, mas também pensativo.
Estrela é um nome apropriado para esta ovelha nascida na Serra da Estrela, região central de Portugal. O seu criador, é um grande amigo português que, por extrema timidez, me fez jurar que não revelaria o seu nome.
Ele me apresentou Estrela há duas semanas, eu a fotografei e postei a imagem de rara beleza negra nas minhas redes sociais. Lembro que mostrei pra ela a fotografia e que ela ficou parada a olhar como se contemplasse um espelho, sem saber que era a última vez que a via.
Hoje em visita ao amigo, tive o segundo e definitivo encontro com Estrela. Ele me mostrava, cheio de contentamento, que nenhum dos alimentos à mesa vinha do talho (açougue) ou do mercado.
Em uma panela havia batatas, cenouras, cebolas e feijão verde colhidos na sua quinta aqui em São Romão. E, ao lado, uma jarra com vinho feito artesanalmente com uvas também desta região. Tudo isto em acompanhamento a Estrela. Sim, na panela maior estava Estrela. Quente, mas morta, cozida. Ela foi morta para nos alimentar.
Essa é a vida, amigos. Hoje somos fotografados, elogiados, queridos, admirados.
Amanhã poderemos morrer para alimentar quem pensávamos que cuidava de nós.
Isso também se aplicaria à nossa condição de empregado? Ou de eleitor?
Foto/texto: José Luiz da Silva
Outubro de 2018.